Monday, November 30, 2009

Outono

"Quando chega o Outono, é bom ter umas luvas de lã e talvez um gorro, sair pelos jardins a ver a maravilha dos amarelos, castanhos, briques, bordeaux, dourados, verde-secos com que as árvores se vestem, observar as folhas a cair, devagar, como se tivessem muito tempo e pisar o tapete luxuoso e estaladiço que se vai tecendo por debaixo dos pés.
Há uma luz diferente, menos crua mas muito luminosa, com cambiantes que surpreendem e reflexos que encantam.
Também são bons os dias cinzentos, sem vento, sem chuva, só um pouco de bruma, como se o sol tivesse sono.
E de súbito, de uma curva do jardim, chega-me ao nariz o aroma antiquíssimo das castanhas a assar nas brasas. Um cheiro de adolescência, de "furos" nas aulas, de companheirismo, de moedas apertadas na palma da mão, de fome fora de horas.
Impossívelnão as comprar, não as meter nos bolsos, não aquecer as mãos com elas, estalar a casca, mastigar a sua polpa ferevente, saborosa, com sugestões de erva-doce e água-pé.
O embrulho num cone de jornal, para não arrefecerem, tem o cunho das coisas simples. Das coisas quentes e boas.
A infância fará sentido e Lisboa será Lisboa, enquanto houver um canto de jardim, rodeado de crianças, aureolado pelo fumo das brasas, envolto no cheiro inconfundível de Outono, o velho, o antigo, o eterno vendedor de castanhas."

Rosa Lobato de Faria in "o Livro do bem-estar"

1 comment:

joana said...

E já é tão difícil encontrar estes Outonos "puros"... =)

vamos recriá-los! =D

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